Investir em ações não é imprudente

Quando pensamos corretamente em horizontes longos, retornos reais e objetivos de vida, o maior erro financeiro costuma ser proteger-se cedo demais.

Evidências, o longo prazo e o verdadeiro papel do consultor financeiro

Por décadas, a indústria financeira repetiu uma ideia que hoje parece quase natural: à medida que envelhecemos, devemos reduzir nossa exposição às ações e aumentar a participação em títulos ou renda fixa.

A lógica parece convincente. Menos volatilidade. Mais “segurança”. Mais tranquilidade.

No entanto, quando analisamos as evidências em profundidade — olhando para horizontes longos, retornos reais e cenários de vida inteira — essa intuição começa a mostrar fissuras significativas. Um artigo acadêmico recente coloca esse debate no centro da mesa e chega a uma conclusão desconfortável para o consenso tradicional: para a maioria dos investidores, durante quase toda a sua vida financeira, a alocação ideal é fortemente inclinada para ações, não para títulos.

Longe de ser uma provocação teórica, esse trabalho apoia algo que nós da Nantas vemos todos os dias na prática: o maior risco financeiro de longo prazo não é a volatilidade do seu portfólio, mas sim que ele não cresça o suficiente.

O status quo: idade, prudência e renda fixa

O modelo dominante de investimento ao longo da vida baseia-se em duas ideias centrais:

  1. Você precisa diversificar entre ações e títulos.
  2. Com o tempo, é recomendável reduzir o risco diminuindo a exposição às ações.

 

Essa abordagem é tão difundida que até se tornou normativa: fundos de “target date”, portfólios padrão em planos de aposentadoria e muitos conselhos automatizados seguem essa lógica quase sem exceção.

Mas o problema não é que essas ideias sejam irracionais. O problema é que tipo de risco eles estão tentando minimizar.

A maioria dessas estratégias é projetada para reduzir a volatilidade de curto prazo. O que raramente é analisado com a mesma ênfase é o risco real de longo prazo:

  • inflação,
  • longevidade,
  • Sequência de retornos,
  • e a necessidade de sustentar o consumo por décadas.

O que torna este artigo diferente

O artigo Além do Status Quo: Uma Avaliação Crítica do Conselho de Investimento ao Longo da Vida destaca-se por algo incomum: ele não parte de suposições confortáveis.

Em vez de:

  • assumir retornos normais,
  • modelar um único país,
  • ou extrapolando dados de períodos curtos,

 

Os autores trabalham com:

  • dados reais de 39 países desenvolvidos,
  • mais de 2.600 anos combinados de história financeira,
  • retornos reais (ajustados pela inflação),
  • e uma metodologia que preserva correlações, crises e comportamentos de longo prazo.

 

O resultado é um modelo que se parece muito mais com o mundo real do que com os manuais.

E quando esse exercício é levado a sério, o resultado é claro:

A alocação ótima ao longo da vida é surpreendentemente estável e dominada por ações globais, com participação mínima ou nenhuma em renda fixa.

 

 

O ponto mais contraintuitivo: os títulos não são “seguros” a longo prazo

Uma das contribuições mais valiosas do artigo é mostrar algo que geralmente passa despercebido:

A longo prazo: títulos não reduzem o risco,

Em particular:

  • Eles têm retornos reais significativamente menores do que as ações.
  • Sua volatilidade aumenta quando medida em longos períodos.
  • Eles se tornam mais correlacionados com ações domésticas.
  • E eles são especialmente vulneráveis à inflação.

 

Ações internacionais, por outro lado:

  • Preservam melhor o poder de compra,
  • diversificam riscos macroeconômicos,
  • e reduzem o risco de resultados financeiros extremos.

 

Sob essa perspectiva, usar títulos como “âncora de segurança” pode aumentar o risco de não alcançá-lo, especialmente quando o objetivo é financiar uma vida longa e em termos reais (ajustando o nível de gastos para a inflação).

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Aposentadoria: onde o mito acaba sendo quebrado

Talvez o resultado mais desconfortável do artigo apareça na fase em que, supostamente, a renda fixa deveria brilhar: a aposentadoria.

Ao comparar portfólios tradicionais (incluindo fundos de target date) com portfólios dominados por ações globais, os autores concluem que estes últimos:

  • geram mais riqueza quando começarem a se aposentar,
  • são menos propensas a ficar sem capital antes da morte do titular,
  • Eles sustentam melhor o consumo real,
  • e oferecem maior resiliência à inflação e longevidade.

 

Mesmo considerando cenários adversos, a probabilidade de “quebrar” é menor com maior exposição a ações do que com portfólios conservadores.

Isso não elimina o desconforto emocional da volatilidade. Mas isso redefine o que entendemos por segurança financeira e nos dá um norte que nos torna mais predispostos a aceitar a viagem.

Então, por que continuamos insistindo em ações?

Na Nantas, não insistimos em ter mais ações por dogma, moda ou agressividade desnecessária.

Insistimos porque:

  • Evidências empíricas comprovam isso,
  • o longo prazo exige isso,
  • E a inflação pune tudo que não cresce.

 

Nosso papel como consultores não é eliminar a volatilidade, mas ajudar nossos clientes:

  • Entendam o risco correto,
  • diferenciem desconforto de perigo,
  • e coexistir com portfólios com mais ações de forma serena e sustentável.

 

Renda fixa não é proibida. Mas acreditamos firmemente que, se uma carteira tem pouca exposição a ações, deve haver uma razão muito boa para isso — uma razão financeira real, não apenas emocional.

O verdadeiro valor do consultor

Este artigo não diz que todos devem simplesmente ter 100% das ações.
Isso nos dá algo mais profundo, uma estrutura diferente para enquadrar a decisão.

Quando pensamos corretamente em horizontes longos, retornos reais e objetivos de vida, o maior erro financeiro geralmente é se proteger cedo demais.

Acreditamos que o verdadeiro valor do consultor financeiro não está em fazer o cliente se sentir confortável no curto prazo. É ajudá-lo a não sabotar seu futuro por medo do presente.

Ações não são apenas um ativo volátil. Eles são a única classe de ativos que participa diretamente da engenhosidade humana, inovação, produtividade e da capacidade das sociedades de se adaptarem. Como David Booth, fundador da Dimensional, repetiu muitas vezes, as ações são o único ativo que captura sistematicamente o progresso humano.

Investir com mais ações não é imprudente. Pelo contrário, acreditamos que é a maneira mais honesta de reconhecer como o tempo age sobre o capital.

A evidência sustenta isso.

Cr. Rodrigo Cancela, CFA