Quando pensamos corretamente em horizontes longos, retornos reais e objetivos de vida, o maior erro financeiro costuma ser proteger-se cedo demais.
Evidências, o longo prazo e o verdadeiro papel do consultor financeiro
Por décadas, a indústria financeira repetiu uma ideia que hoje parece quase natural: à medida que envelhecemos, devemos reduzir nossa exposição às ações e aumentar a participação em títulos ou renda fixa.
A lógica parece convincente. Menos volatilidade. Mais “segurança”. Mais tranquilidade.
No entanto, quando analisamos as evidências em profundidade — olhando para horizontes longos, retornos reais e cenários de vida inteira — essa intuição começa a mostrar fissuras significativas. Um artigo acadêmico recente coloca esse debate no centro da mesa e chega a uma conclusão desconfortável para o consenso tradicional: para a maioria dos investidores, durante quase toda a sua vida financeira, a alocação ideal é fortemente inclinada para ações, não para títulos.
Longe de ser uma provocação teórica, esse trabalho apoia algo que nós da Nantas vemos todos os dias na prática: o maior risco financeiro de longo prazo não é a volatilidade do seu portfólio, mas sim que ele não cresça o suficiente.
O status quo: idade, prudência e renda fixa
O modelo dominante de investimento ao longo da vida baseia-se em duas ideias centrais:
Essa abordagem é tão difundida que até se tornou normativa: fundos de “target date”, portfólios padrão em planos de aposentadoria e muitos conselhos automatizados seguem essa lógica quase sem exceção.
Mas o problema não é que essas ideias sejam irracionais. O problema é que tipo de risco eles estão tentando minimizar.
A maioria dessas estratégias é projetada para reduzir a volatilidade de curto prazo. O que raramente é analisado com a mesma ênfase é o risco real de longo prazo:
O que torna este artigo diferente
O artigo Além do Status Quo: Uma Avaliação Crítica do Conselho de Investimento ao Longo da Vida destaca-se por algo incomum: ele não parte de suposições confortáveis.
Em vez de:
Os autores trabalham com:
O resultado é um modelo que se parece muito mais com o mundo real do que com os manuais.
E quando esse exercício é levado a sério, o resultado é claro:
A alocação ótima ao longo da vida é surpreendentemente estável e dominada por ações globais, com participação mínima ou nenhuma em renda fixa.
O ponto mais contraintuitivo: os títulos não são “seguros” a longo prazo
Uma das contribuições mais valiosas do artigo é mostrar algo que geralmente passa despercebido:
A longo prazo: títulos não reduzem o risco,
Em particular:
Ações internacionais, por outro lado:
Sob essa perspectiva, usar títulos como “âncora de segurança” pode aumentar o risco de não alcançá-lo, especialmente quando o objetivo é financiar uma vida longa e em termos reais (ajustando o nível de gastos para a inflação).
Aposentadoria: onde o mito acaba sendo quebrado
Talvez o resultado mais desconfortável do artigo apareça na fase em que, supostamente, a renda fixa deveria brilhar: a aposentadoria.
Ao comparar portfólios tradicionais (incluindo fundos de target date) com portfólios dominados por ações globais, os autores concluem que estes últimos:
Mesmo considerando cenários adversos, a probabilidade de “quebrar” é menor com maior exposição a ações do que com portfólios conservadores.
Isso não elimina o desconforto emocional da volatilidade. Mas isso redefine o que entendemos por segurança financeira e nos dá um norte que nos torna mais predispostos a aceitar a viagem.
Então, por que continuamos insistindo em ações?
Na Nantas, não insistimos em ter mais ações por dogma, moda ou agressividade desnecessária.
Insistimos porque:
Nosso papel como consultores não é eliminar a volatilidade, mas ajudar nossos clientes:
Renda fixa não é proibida. Mas acreditamos firmemente que, se uma carteira tem pouca exposição a ações, deve haver uma razão muito boa para isso — uma razão financeira real, não apenas emocional.
O verdadeiro valor do consultor
Este artigo não diz que todos devem simplesmente ter 100% das ações.
Isso nos dá algo mais profundo, uma estrutura diferente para enquadrar a decisão.
Quando pensamos corretamente em horizontes longos, retornos reais e objetivos de vida, o maior erro financeiro geralmente é se proteger cedo demais.
Acreditamos que o verdadeiro valor do consultor financeiro não está em fazer o cliente se sentir confortável no curto prazo. É ajudá-lo a não sabotar seu futuro por medo do presente.
Ações não são apenas um ativo volátil. Eles são a única classe de ativos que participa diretamente da engenhosidade humana, inovação, produtividade e da capacidade das sociedades de se adaptarem. Como David Booth, fundador da Dimensional, repetiu muitas vezes, as ações são o único ativo que captura sistematicamente o progresso humano.
Investir com mais ações não é imprudente. Pelo contrário, acreditamos que é a maneira mais honesta de reconhecer como o tempo age sobre o capital.
A evidência sustenta isso.
Cr. Rodrigo Cancela, CFA
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